Pendurar um comedouro no quintal parece um gesto inofensivo — e, na maior parte do tempo, é. Mas um alerta publicado no fim de agosto coloca a prática sob outra luz: em regiões com circulação de influenza aviária de alta patogenicidade, o comedouro de pássaros pode virar exatamente o tipo de ponto de encontro que o vírus precisa.
Quem assina o alerta é Darryl Jones, professor emérito do Centre for Planetary Health and Food Security da Griffith University, na Austrália, em análise publicada em 24 de agosto no The Conversation e reproduzida pelo ScienceDaily. Segundo ele, alimentar aves no quintal pode atuar como “um evento de superdisseminação” — aquele em que uma doença infecta um número anormalmente alto de indivíduos.
A lógica é de aglomeração. O comedouro reúne, no mesmo poleiro e sobre a mesma superfície suja de saliva e fezes, aves que normalmente não se encontrariam. Na Austrália, onde metade dos domicílios alimenta aves silvestres, o surto em curso já matou mais de mil trinta-réis-de-crista e chegou a uma foca.
Índice:
Comedouro de pássaros e gripe aviária: o que o pesquisador recomenda
- Parar de alimentar é, segundo ele, a estratégia mais eficaz durante surtos ativos na região;
- se não parar, reduzir a quantidade de sementes e restos de carne oferecidos;
- evitar alimentar com a mão e qualquer contato direto com aves silvestres;
- higienizar com rigor todas as superfícies e equipamentos de alimentação, usando água sanitária doméstica.
Pesquisas anteriores do próprio grupo trazem um consolo: a maioria das aves de quintal obtém a maior parte da nutrição de fontes naturais, como insetos e minhocas. Ou seja, suspender o comedouro por um período não condena os visitantes à fome.
E no Brasil? O país segue em emergência zoossanitária
O quadro brasileiro é diferente do australiano, mas não é de tranquilidade. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) prorrogou em março de 2026, pela Portaria nº 896, por mais 180 dias o estado de emergência zoossanitária em todo o território nacional, em função da circulação do vírus H5N1 em aves silvestres.
Até a divulgação oficial, o país acumulava 188 focos da doença: 173 em aves silvestres, 14 em criações de subsistência e apenas um em plantel comercial. O primeiro foco no Brasil foi registrado em maio de 2023, em aves silvestres. A concentração em aves de vida livre é justamente o cenário em que o alerta sobre comedouros faz sentido — e reforça a recomendação de não manipular aves silvestres encontradas doentes ou mortas, e sim comunicar ao serviço veterinário oficial do estado.
Quem tem ave de estimação precisa redobrar o cuidado
Para tutores de calopsitas, periquitos, papagaios e canários, a orientação prática é de barreira sanitária caseira:
- mantenha a gaiola ou viveiro fora do alcance de aves silvestres — sem contato, sem compartilhamento de poleiro, comedouro ou bebedouro;
- evite deixar a gaiola em varanda onde pombos e pardais pousem;
- lave as mãos antes e depois de manejar a ave, e troque de calçado se esteve em área com aves de vida livre;
- não ofereça à ave doméstica ração ou sementes que ficaram expostas a aves silvestres;
- procure um veterinário diante de apatia súbita, dificuldade respiratória ou queda de consumo de água.
O vírus também não ignora mamíferos: no início do ano, o CDC confirmou o primeiro indício de gripe aviária passando de gato para humano, num caso envolvendo profissional de medicina veterinária. Gatos com acesso à rua que cacem aves entram na conta do risco.
Se você cria aves legalizadas, vale revisar manejo e ambiente nos nossos guias de calopsita e periquito-rei. E, se a origem da ave for duvidosa, lembre-se de que o tráfico de silvestres movimenta animais sem qualquer controle sanitário — outro vetor de risco.
Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a consulta a um médico-veterinário. Aves silvestres doentes ou mortas não devem ser manipuladas: comunique o serviço veterinário oficial do seu estado.
Fonte: Bird flu is spreading. Your backyard feeder could make it worse — The Conversation / ScienceDaily


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