Resposta rápida: um levantamento publicado na revista científica Primates reuniu 427 casos de amizade entre espécies em primatas, envolvendo 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras. Brincadeira (139 casos) e catação (136) foram as interações mais comuns, e cães domésticos apareceram em 26 encontros. A conclusão incomoda uma velha certeza: formar laços afetivos com outra espécie talvez não seja exclusividade humana.
Num templo na Tailândia, um macaco-de-cauda-curta cata calmamente o pelo de um cão doméstico deitado. A cena parece anedota de internet — mas foi catalogada, junto com centenas de outras, no maior levantamento já feito sobre amizade entre espécies em primatas.
O estudo, intitulado “Heterospecific social behavior in primates: insights into the evolutionary roots of pet-keeping”, foi publicado na revista Primates e liderado pelo professor associado Cyril C. Grueter, da School of Anthropology and Museum Ethnography da Universidade de Oxford, com colaboradores internacionais. O anúncio é de 29 de julho de 2026.
Índice:
O que os 427 casos de amizade entre espécies em primatas mostraram
Em vez de partir de uma única observação de campo, os pesquisadores garimparam evidências em três frentes e cruzaram tudo:
- 303 casos vindos da literatura científica;
- 58 casos registrados pela mídia;
- 66 casos levantados numa consulta a primatólogos;
- total de 427 casos, com 88 espécies de primatas interagindo amistosamente com 127 espécies parceiras (55 delas não-primatas).
As duas formas de interação dominantes foram brincadeira (139 casos) e catação (136 casos) — exatamente o repertório que os primatas usam para manter laços dentro do próprio grupo, aqui redirecionado para fora da espécie. Há um recorte etário e social interessante: filhotes e jovens eram muito mais propensos a brincar com membros de outras espécies, enquanto fêmeas adultas apareciam mais na catação.
Cães domésticos não são figurantes nessa história. Os autores registraram 26 encontros envolvendo cães em condições selvagens ou de vida livre, e a dupla macaco-rhesus e cão foi uma das combinações mais frequentemente relatadas em todo o conjunto de dados. Em 13 casos, o animal parceiro acabou morrendo — um detalhe sombrio que lembra que nem toda “amizade” interespécie termina bem, sobretudo quando envolve filhotes.
Por que isso mexe com a ideia de ter um animal de estimação
Grueter resume o incômodo central: humanos foram por muito tempo considerados únicos na formação de relações sociais próximas com outras espécies, e o estudo mostra que muitos primatas também exibem uma curiosidade notável nesse sentido. Se a disposição de brincar, cuidar e conviver com um bicho de outra espécie aparece espalhada por 88 espécies de primatas, ela provavelmente é mais antiga do que qualquer processo de domesticação.
Isso não significa que macacos “tenham pets” no sentido em que nós temos. O que o levantamento sugere é mais sutil e mais interessante: os ingredientes psicológicos que tornam o convívio possível — curiosidade social, tolerância, capacidade de cuidado dirigida a um indivíduo de outra espécie — já estavam disponíveis no galho primata muito antes de o primeiro lobo se aproximar de uma fogueira humana.
Esse encaixe conversa com o que a genética e a arqueologia vêm reconstruindo sobre os 15 mil anos de coevolução entre cães e humanos — uma história que deixou marcas até no vira-lata brasileiro, como revelou o teste de DNA em vira-latas caramelo. E ajuda a explicar por que o cão lê tão bem nossas intenções: em experimentos, cães ajudam o dono como uma criança de 2 anos, enquanto gatos observam sem agir.
Há também um uso prático. Segundo Grueter, entender por que algumas espécies formam relações positivas com outras pode ajudar a melhorar o manejo de grupos com espécies mistas — um problema concreto em zoológicos, santuários e áreas de conservação.
No fim, o achado tem um efeito curioso sobre quem está lendo isto com um cão aos pés ou um gato no colo: a vontade de ter companhia de outra espécie talvez não seja uma invenção cultural humana, mas uma herança bem mais antiga — que a gente só levou mais longe do que os outros.
Aviso: este conteúdo é informativo e jornalístico e não substitui a consulta a um médico-veterinário. Diagnóstico, prescrição e mudanças de tratamento do seu animal devem ser feitos sempre por um profissional habilitado, que examina o caso concreto.


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