Resposta rápida: O Projeto Xero, do Núcleo de Doenças Infecciosas da Ufes, treina cães voluntários para farejar câncer, tuberculose e esquistossomose em amostras humanas. Não há restrição de raça, o treino usa reforço positivo e os melhores animais já superam 90% de acerto. O projeto tem duração prevista de quatro anos.
A ideia de cães que detectam câncer pelo faro deixou de ser curiosidade de documentário e virou linha de pesquisa dentro de uma universidade pública brasileira. Na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o Projeto Xero treina cães voluntários para reconhecer, pelo cheiro, sinais químicos de câncer, tuberculose e esquistossomose em amostras biológicas humanas.
Conduzido pelo Núcleo de Doenças Infecciosas da instituição e coordenado pelo professor Carlos Graeff, do Departamento de Patologia, o projeto tem duração prevista de quatro anos. O objetivo não é substituir exame laboratorial, e sim construir métodos de triagem populacional capazes de sinalizar precocemente quem precisa investigar mais a fundo — algo especialmente valioso em regiões com pouco acesso a diagnóstico.
Índice:
Como os cães que detectam câncer são treinados
O treinamento acontece no Centro de Ciências da Saúde, no campus de Maruípe, em Vitória, em sessões de uma a duas horas, uma ou duas vezes por semana. E aqui vem a parte que costuma surpreender: não há restrição de raça. Vira-latas são bem-vindos, e a inscrição é voluntária, feita pelos próprios tutores.
O critério de seleção é comportamental, não genealógico. “Cães que gostam de brincar e de comer são normalmente os melhores candidatos”, resume Graeff. Faz sentido: todo o método se apoia em reforço positivo.
- O animal é exposto a amostras de pessoas saudáveis e de pacientes com diagnóstico confirmado.
- Quando identifica corretamente uma amostra positiva, um dispensador automático libera comida na hora.
- A recompensa imediata constrói a associação entre o odor e o prêmio — e o ciclo se repete até a resposta ficar consistente.
“Quando o cão se depara com uma amostra positiva, um dispensador de alimento é acionado automaticamente e o cão recebe essa recompensa, ensinando-o a associar aquele cheiro à comida”, explicou o coordenador. Entre os animais com melhor desempenho, a taxa de acerto já passa de 90%.
Por que o nariz do cão consegue fazer isso
A base biológica é a desproporção. O olfato canino conta com dezenas a centenas de milhões de receptores — uma ordem de grandeza que permite perceber variações químicas minúsculas em amostras de saliva, sangue, urina e até no ar exalado. Doenças alteram o metabolismo, o metabolismo altera os compostos voláteis emitidos pelo corpo, e é essa assinatura química que o cão aprende a marcar.
Pesquisas conduzidas nos Estados Unidos e no Reino Unido já apontavam essa capacidade, com índices de acerto altos em testes experimentais — tema que acompanhamos na reportagem sobre cães que detectam doenças pelo olfato. O diferencial do Xero é ser um projeto nacional, de longo prazo, mirando doenças com peso epidemiológico no Brasil — tuberculose e esquistossomose não estão no radar dos grupos europeus, mas estão no nosso.
Vale um lembrete de calibragem: nada disso significa que um cão de estimação “sabe” quando o tutor está doente, nem que histórias de cachorro cheirando insistentemente uma região do corpo devam substituir consulta médica. A habilidade demonstrada em laboratório depende de treinamento estruturado, amostras controladas e validação estatística. O que a ciência vem mostrando é que o repertório sensorial e comportamental do cão é muito mais sofisticado do que se imaginava — e que ele pode ser colocado a serviço da saúde humana, do mesmo modo que gatos idosos vêm ajudando a entender o envelhecimento cerebral.
Tutores da Grande Vitória interessados em inscrever seus cães podem procurar o Núcleo de Doenças Infecciosas da Ufes pelos canais oficiais do projeto.
Este conteúdo é informativo e jornalístico e não substitui a consulta a um médico-veterinário — para questões de saúde humana, procure um médico. Diagnóstico, prescrição e acompanhamento só podem ser feitos presencialmente por profissional habilitado, que conhece o histórico do seu animal.
Fonte: Olhar Digital — Cães podem ajudar a detectar câncer em novo estudo da Ufes


Deixe um comentário