Cães entrando em sala de atendimento e cavalos usados em sessões de equoterapia deixaram de ser
exceção no tratamento do autismo no Brasil. A terapia assistida por animais vem se
firmando na prática clínica — e agora tenta o passo mais difícil: virar oferta do Sistema Único de
Saúde.
O caminho legislativo já existe. Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4711/2023, que propõe
incluir a TAA no SUS dentro da Lei 12.764/2012, a Lei Berenice Piana, que instituiu a Política Nacional de
Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. A proposta está em discussão
legislativa — nenhuma incorporação formal ao SUS foi concluída até agora.
Índice:
O que a terapia assistida por animais tem entregado na prática
Os relatos clínicos e as revisões científicas apontam na mesma direção. Entre crianças atendidas,
profissionais documentam avanços em interação social, ampliação de vocabulário e melhora na capacidade de
comunicação. Também aparecem redução de sintomas de ansiedade e ganhos em autoeficácia e autocontrole.
Na equoterapia, os ganhos relatados são mais motores: equilíbrio, coordenação e atenção. E há um efeito
que atravessa todas as modalidades — a melhora da qualidade de vida das famílias envolvidas no
tratamento.
Bianca Luísa, gestora da clínica Prima Cordis, em Belo Horizonte, e mãe de uma criança autista, é uma
das vozes que defendem a ampliação do acesso. O ponto que ela levanta é econômico: o tratamento pode
custar mais de R$ 3 mil por mês por paciente, valor inviável para a maior parte das famílias brasileiras.
O Hospital Versania é outra instituição que já implementou visitas terapêuticas com cães.
- Escala do problema: cerca de 70 milhões de pessoas no mundo estão no espectro autista, segundo a OMS
- No Brasil: aproximadamente 2 milhões de pessoas
- Custo relatado: mais de R$ 3 mil mensais por paciente na rede privada
- Base científica: revisões publicadas entre 2008 e 2024 em bases como SciELO, PubMed e Scopus
As lacunas que ainda pesam contra
Nem tudo joga a favor. Especialistas apontam problemas que precisam ser resolvidos antes de uma
incorporação ampla: falta de padronização de protocolos, ausência de regras claras de formação
profissional para quem conduz as sessões e necessidade de estudos metodologicamente mais robustos. São
exatamente os critérios que o SUS avalia antes de incorporar qualquer tecnologia de saúde.
Há também o lado do animal, que raramente entra na conversa. Um cão de terapia trabalha, e trabalho
gera cansaço e estresse. Saber ler os sinais de desconforto — o repertório descrito na
linguagem corporal do cachorro — faz parte do protocolo ético de qualquer programa
sério. Cães que atuam em ambiente hospitalar também precisam de vacinação e vermifugação rigorosamente em
dia, conforme o calendário de vacinação, e de acompanhamento veterinário
frequente.
A discussão sobre cobertura pública se soma a outro debate em curso no país: o de que
planos de saúde para pets não são fiscalizados pela ANS — sinal de que a
regulamentação da relação entre animais e saúde ainda está sendo escrita no Brasil.
Este conteúdo é informativo e jornalístico e não substitui a consulta a um médico-veterinário. Diante de qualquer sinal de doença, procure atendimento profissional. Informações sobre saúde humana também não substituem a avaliação de um médico.
Fonte: O Tempo — Terapia com cães e cavalos ganha espaço no tratamento do autismo e mira vaga no SUS


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