Ele pesa pouco mais que um gato doméstico, some no chão do deserto por pura camuflagem e é tão esquivo que ganhou o apelido de “fantasma do deserto”. O gato-da-areia (Felis margarita) acaba de ter sua presença documentada pela primeira vez na Líbia — graças a um vídeo caseiro de 18 segundos publicado no YouTube.
O estudo foi publicado no Journal of Arid Environments e assinado pelo ecólogo Firas Hayder, especialista em pequenos carnívoros do norte da África, e pelo fotógrafo líbio Mohammed Almuntasir.
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Como um vídeo amador virou registro científico do gato-da-areia
Almuntasir gravou as imagens em 2017, perto do deserto de Al-Hamada Al-Hamra: o felino descansando à sombra, sem pressa. Ele achou que tinha filmado uma espécie comum e postou o vídeo sem maiores expectativas.
Foi Hayder quem, ao assistir, reconheceu a importância do registro. Aquelas imagens eram a primeira evidência documentada da presença do gato-da-areia no país, depois de quase uma década de esforços de pesquisa infrutíferos.
O trabalho conjunto que se seguiu reuniu, ao longo de oito anos, 36 avistamentos em 13 localidades da Líbia — sendo 24 documentados pelo próprio Almuntasir. É um retrato raríssimo de uma espécie que quase ninguém consegue ver.
Um bicho construído para o deserto
O gato-da-areia é um manual de adaptação extrema:
- Não bebe água. Ou quase: obtém praticamente todo o líquido de que precisa das presas que consome.
- Vive em tocas durante o calor intenso do dia e caça à noite, mirando principalmente roedores e répteis.
- Camuflagem natural tão eficiente que dificulta o avistamento mesmo em campo aberto.
- Patas com pelos densos nas almofadas, que funcionam como isolamento contra a areia escaldante — e apagam suas pegadas.
Por que “pouco preocupante” pode ser enganoso
A espécie é hoje classificada como “pouco preocupante” pela IUCN. Os pesquisadores alertam, porém, que a vulnerabilidade real pode estar subestimada — justamente porque é dificílimo censar um animal que ninguém vê. E eles documentaram ameaças concretas: comércio ilegal de animais de estimação e caça para consumo, registrados em mercados locais.
Esse ponto merece sublinhado, porque o gato-da-areia tem carinha de filhote a vida inteira e circula em vídeos virais como se fosse candidato a pet. Não é, e não deve ser: é um animal silvestre, com necessidades térmicas, alimentares e comportamentais impossíveis de reproduzir em casa. A regra vale aqui como vale para a criação legal de répteis no Brasil — animal silvestre exige autorização, manejo especializado e, na maioria das vezes, não deveria sair do habitat.
Se a fascinação por felinos falou mais alto, dá para saciá-la sem tirar ninguém do deserto: o gato doméstico guarda seus próprios truques evolutivos, como explicamos em como os gatos enxergam no escuro. E, para quem acabou de adotar, a lista de nomes para gato continua sendo o problema mais difícil da semana.
Aviso: este conteúdo é jornalístico e informativo e não substitui a consulta a um médico-veterinário para o seu animal, nem a um médico para questões de saúde humana. Diante de qualquer sinal clínico, procure atendimento profissional.
Fonte: Exame.


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