Países com mais gatos são países mais felizes? Foi essa a pergunta — meio séria, meio provocadora — que uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade de Chicago levou aos números. O resultado, publicado na revista PLOS ONE e divulgado no início de outubro de 2026, mostra que sim, as duas coisas andam juntas. Mas a explicação é bem menos fofa do que o título sugere.
O trabalho, assinado por J. I. Borráz-León e colegas, entre eles o biólogo comportamental Dario Maestripieri, reuniu dados de 93 nações: índice de felicidade (médias de 2022 a 2024), renda, gastos com saúde, PIB, densidade de gatos domésticos — medida em animais por 10 mil habitantes — e a exposição da população ao Toxoplasma gondii, parasita cujo ciclo de vida passa pelos felinos.
Índice:
O que o estudo encontrou nos países com mais gatos
- Mais gatos, mais felicidade: a correlação entre densidade de gatos e felicidade nacional foi de 0,62.
- Dinheiro pesa mais: a correlação entre felicidade e PIB per capita foi de 0,80.
- Riqueza e gatos andam juntos: densidade de gatos e PIB tiveram correlação de 0,79.
- O parasita puxa para baixo: nações com maior exposição ao Toxoplasma gondii apresentaram índices de felicidade menores.
Em outras palavras: países ricos têm mais gatos e são mais felizes. Separar o que é efeito do bichano do que é efeito da conta bancária nacional é justamente o que esse tipo de análise não consegue fazer. Os próprios cientistas escreveram que não é possível afirmar que ter mais gatos torna as pessoas felizes, nem que o parasita reduz a felicidade — apenas que o padrão é interessante o bastante para merecer mais investigação.
O paradoxo do parasita
A parte mais curiosa está em um aparente contrassenso. Se o gato é o hospedeiro definitivo do Toxoplasma, seria de esperar que lugares com mais gatos tivessem mais gente exposta. O estudo encontrou o oposto: onde há mais gatos, a exposição ao parasita tende a ser menor.
A hipótese dos autores é que o tipo de gato importa mais que a quantidade. Em países mais ricos, os felinos costumam viver dentro de casa, comer ração industrializada e receber cuidados veterinários — o que reduz a chance de se infectarem caçando presas e, portanto, de espalharem o parasita. Um gato de apartamento bem alimentado é, do ponto de vista epidemiológico, muito diferente de um animal de vida livre que caça.
É um bom argumento a favor do que já se recomenda por outros motivos: manter o gato dentro de casa e oferecer uma alimentação para gatos adequada, sem carne crua. Vale lembrar que a toxoplasmose humana está ligada sobretudo a carne mal cozida e a água, solo ou vegetais contaminados; o tema aparece no nosso guia de zoonoses.
As limitações que os autores reconhecem
O levantamento tem ressalvas importantes. Os dados de gatos não distinguem animais de estimação de gatos de rua ou ferais. A exposição ao parasita foi estimada a partir de infecções em gestantes compiladas em uma meta-análise global de 2020, com estudos de várias décadas. E a análise não controlou fatores como urbanização, clima e saneamento.
Ainda assim, o trabalho conversa com uma linha de pesquisa crescente sobre o que os felinos fazem com o nosso humor. Já contamos aqui o que a ciência do ronronar do gato descobriu e por que acariciar o gato nem sempre reduz o estresse como se imagina. A lição, por enquanto, é modesta: gato não é atalho para a felicidade de um país — mas a forma como uma sociedade cuida dos seus gatos diz bastante sobre ela.
Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a consulta a um médico-veterinário (para o animal) nem a um médico (para pessoas). Em caso de dúvida sobre a saúde do seu pet, procure um profissional habilitado.
Fonte: Sci.News; estudo original na PLOS ONE (DOI 10.1371/journal.pone.0357911).


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