Elas piscam, mexem os bigodes, giram as orelhas e franzem o focinho — e, ao fazer isso, montam um repertório impressionante. As expressões faciais dos gatos chegam a 276 combinações diferentes quando um felino “conversa” com outro, segundo um estudo que analisou dezenas de bichanos convivendo no mesmo ambiente. O número, próximo de 300, surpreendeu até quem estuda comportamento animal e ajuda a desmontar o velho mito do gato solitário e indecifrável.
A pesquisa foi conduzida por Lauren Scott, do Centro Médico da Universidade do Kansas, e pela psicóloga evolutiva Brittany N. Florkiewicz, do Lyon College, e publicada em outubro de 2023 no periódico Behavioural Processes. Para chegar aos números, Scott filmou 53 gatos adultos em um café de gatos de Los Angeles ao longo de cerca de um ano. Das 194 minutos de vídeo, a dupla isolou 186 interações entre os animais e destrinchou, quadro a quadro, cada movimento do rosto.
Índice:
Como os cientistas chegaram às 276 expressões faciais dos gatos
O trabalho não contou “caras” no olho. As pesquisadoras identificaram 26 movimentos faciais distintos — como piscadas, lambidas de nariz, mudanças na posição das orelhas e no direcionamento dos bigodes — e mapearam quais deles apareciam combinados em cada interação. Da soma dessas peças saíram as 276 expressões. Para efeito de comparação, os humanos produzem cerca de 44 expressões faciais, e os cães, em torno de 27.
O mais revelador não foi só a quantidade, mas o tom. Ao classificar cada expressão pelo contexto, a equipe encontrou a seguinte divisão:
- Cerca de 45% (126 expressões) foram amigáveis — os gatos apontavam orelhas e bigodes na direção um do outro, um sinal de aproximação e boa vontade.
- Cerca de 37% foram agressivas — marcadas por pupilas contraídas e orelhas achatadas para trás.
- Cerca de 18% ficaram em uma zona ambígua, misturando sinais amistosos e hostis.
As autoras também descreveram uma “cara de brincadeira” (play face): mandíbula relaxada e cantos da boca puxados para trás. O detalhe curioso é que essa mesma expressão aparece em humanos, cães e primatas em momentos de diversão — um indício de que certos sinais faciais podem ser evolutivamente compartilhados entre espécies bem diferentes.
O que isso revela sobre a socialização dos gatos
Durante milênios, o gato foi rotulado como um animal antissocial que apenas tolera a companhia. O estudo aponta na direção oposta: um bicho que dedica quase metade do seu vocabulário facial a mensagens amistosas precisa, necessariamente, se importar com a relação. Como os gatos domésticos passaram a viver em grupos muito mais densos do que seus ancestrais selvagens — em casas, abrigos e cafés de gatos —, é plausível que eles tenham refinado essa comunicação para reduzir conflitos e manter a convivência.
Para o tutor, a lição prática é aprender a ler o rosto, e não só o miado. Orelhas e bigodes voltados para você costumam ser um convite; pupilas apertadas e orelhas coladas na cabeça pedem espaço. Vale lembrar que a comunicação felina vai além da cara: ela se combina com a linguagem corporal e com a voz. Não à toa, outras pesquisas mostram que os gatos até reconhecem o próprio nome e que o ronronar e o miado carregam informações específicas para cada situação.
Entender esses sinais é parte central de decifrar o comportamento animal como um todo. Se você tem mais de um gato em casa, observar quem aponta as orelhas para quem — e quem contrai as pupilas — ajuda a perceber cedo tensões entre eles e a organizar recursos como caixas de areia, comedouros e locais de descanso para evitar brigas. Reconhecer uma expressão amigável ou de brincadeira também é uma forma de fortalecer o vínculo e responder na hora certa.
Os próprios pesquisadores ressaltam que este é só o começo: o estudo mapeou a “gramática” facial dos gatos, mas ainda falta traduzir com precisão o significado de cada expressão. Ainda assim, ele deixa claro que, por trás daquele olhar aparentemente impassível, existe um sofisticado — e muito ativo — sistema de conversa.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta a um médico-veterinário. Diante de qualquer mudança de comportamento ou sinal de doença no seu gato, procure atendimento profissional.
Fonte: CNN — estudo de Lauren Scott e Brittany N. Florkiewicz, publicado na revista Behavioural Processes


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