Resposta rápida: o número de que 99% dos cachorros têm problemas de comportamento estava inflado. Uma reanálise dos mesmos dados, com 43.517 cães, mostrou que a conta original somava comportamentos normais — como seguir o tutor pela casa ou rosnar para o entregador — como se fossem problemas sérios. A ansiedade de separação, por exemplo, cai para 9,3%.
Os problemas de comportamento em cães viraram manchete em 2025 por causa de um número difícil de esquecer: 99,12% dos cachorros dos Estados Unidos teriam ao menos um problema de comportamento moderado ou grave. Agora, dois dos nomes mais conhecidos da área refizeram as contas com os mesmos dados e concluíram que a taxa foi superestimada. A reanálise ganhou destaque no portal veterinário dvm360 em 5 de outubro de 2026.
O estudo original é de Bonnie Beaver, professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Texas A&M, e saiu em 2024 no Journal of Veterinary Behavior. Ele apontava comportamentos de separação e apego em 85,9% dos cães, agressividade em 55,6% e medo ou ansiedade em 49,9%. A revisão é de James Serpell e Lauren Powell, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia, publicada na mesma revista.
As duas análises usam a mesma base: questionários respondidos por tutores no Dog Aging Project, um grande estudo de ciência cidadã sobre o envelhecimento dos cães — o mesmo que já rendeu achados sobre doenças crônicas em cães. A amostra tem 43.517 animais.
Índice:
Onde a conta dos 99% escorregou
O questionário usado, o mini C-BARQ, dá notas de 0 a 4 para a frequência e a intensidade de cada comportamento e agrupa as perguntas em 14 escalas; a nota de cada escala é a média das suas perguntas. Segundo Serpell e Powell, a análise original se afastou desse desenho em três pontos:
- tratou cada pergunta como medida independente, em vez de usar a média das escalas;
- classificou como agressivo o cão que tirasse nota 2 ou mais em quaisquer 2 de 10 perguntas sobre agressividade;
- juntou num só grupo perguntas de medo que pertencem a três escalas diferentes.
Houve ainda um quarto problema, talvez o mais importante: somar comportamentos de separação com os de apego e busca por atenção, como seguir o tutor de cômodo em cômodo. Separados, os números contam outra história — o apego aparece em 88,9% dos cães, e os comportamentos ligados à separação, em 9,3%. Como escrevem os autores, a maioria dos tutores não vê o apego como um problema.
A nota de corte também pesa. Nas escalas de agressividade, um 2 corresponde a rosnar, latir ou mostrar os dentes; o 4 é tentar morder ou morder. Com o corte em 2, um cão que rosna para o entregador entra na conta de agressividade séria.
Problemas de comportamento em cães: os números refeitos
Com as escalas respeitadas, a agressividade varia de 1,2% a 30,4%, conforme o tipo, e o medo, de 14,1% a 28,2%. Subindo a nota de corte para 3, os percentuais ficam assim:
- agressividade contra outros cães: 11,0%;
- medo de outros cães: 9,0%;
- medo de estranhos: 4,2%;
- comportamentos ligados à separação: 2,3%.
Isso não quer dizer que está tudo bem. Mesmo na conta mais conservadora, alguns comportamentos continuam frequentes: agressividade dirigida a outros cães em 30,4% (que os autores chamam de “ainda preocupante”), latido persistente quando o animal está alarmado ou excitado em 46,9% e tendência a fugir de casa ou do quintal em 29,8%.
A reanálise também não entrega o número “verdadeiro”. Não existe nota de corte padrão para o C-BARQ, o questionário mede frequência e intensidade — não se o tutor considera aquilo um problema — e os participantes do Dog Aging Project foram recrutados pela mídia e pelo boca a boca, o que limita a representatividade. Os próprios autores dizem que são necessárias amostras representativas para estabelecer a prevalência real. Por transparência: Serpell declarou que ele e a Universidade da Pensilvânia detêm os direitos do C-BARQ; o estudo não teve financiamento externo.
Para quem convive com um cachorro, a mensagem é de bom senso. Rosnar, latir e querer ficar perto fazem parte do repertório normal da espécie, e aprender a linguagem corporal do cachorro ajuda a separar o recado do problema. O que merece atenção é o que traz sofrimento ou risco: destruição e vocalização intensa quando o animal fica só, como na ansiedade de separação em cães, mordidas, fugas e medo que paralisa. E vale lembrar que nem todo cão aprende do mesmo jeito.
Importante: este conteúdo é informativo e não substitui a consulta a um médico-veterinário (para o animal) nem a um médico (para pessoas). Mudanças bruscas de comportamento podem ter causa clínica, como dor; procure um médico-veterinário antes de concluir que é “birra”.
Fonte: dvm360 — New study challenges finding that 99% of US dogs have behavior problems (05/10/2026); Serpell JA, Powell LR, Journal of Veterinary Behavior.


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