Resposta rápida: um estudo da Universidade de Surrey com 19.084 tutores de dez países, incluindo o Brasil, agrupou as respostas por afinidade e encontrou dois tipos de tutores de cachorro e três de gato. A diferença central não é quanto a pessoa gosta do animal — é o quanto ela enxerga o pet como membro da família, e isso se reflete direto na conta do veterinário.
Todo mundo que convive com cães e gatos desconfia que existem “escolas” diferentes de tutor: o que leva o cachorro para a cama e o que acha que lugar de cachorro é no quintal. Um estudo publicado na revista Frontiers in Veterinary Science tentou transformar essa impressão em dado — e conseguiu separar tipos de tutores com base em quase 20 mil respostas.
O trabalho, assinado por pesquisadores da Universidade de Surrey, no Reino Unido, aplicou um questionário internacional sobre o vínculo entre humanos e animais em 19.084 tutores de dez países: Austrália, Brasil, China, França, Alemanha, Japão, México, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Cada participante recebeu uma pontuação de vínculo, o HABSCORE, e o algoritmo agrupou quem respondia de forma parecida.
Índice:
Os dois tipos de tutores de cachorro
Entre os tutores de cães, emergiram dois grupos bem definidos:
- O pragmático (HABSCORE médio 54,7): tem uma visão mais funcional da relação. É o grupo com maior proporção de animais que exercem alguma função, como guarda. Gasta menos com produtos e serviços veterinários.
- O afetivo (HABSCORE médio 62,0): descreve o cão “como um filho” em 42,7% dos casos, contra 29,2% no grupo pragmático. Diz que “dinheiro não é problema” quando se trata do animal em 41% dos casos, contra 31,1%.
A diferença aparece na saúde do animal. No grupo afetivo, 75% usam antipulgas, contra 66,5% no pragmático; 77,8% mantêm a vacinação em dia, contra 72,3%; e 18,4% já fizeram limpeza dentária no cão, contra 14,7%. São diferenças consistentes, ainda que nenhum dos grupos apareça como negligente.
O retrato dialoga com uma pesquisa recente em que 40% dos adultos disseram que escolheriam pets em vez de filhos — a linguagem da parentalidade já entrou de vez na relação com o animal.
Nos gatos, três perfis
Entre tutores de gatos, o agrupamento devolveu três clusters em vez de dois:
- Grupo 1 (HABSCORE 44,6): o mais jovem e o mais pragmático dos três. É também o que menos percebe impacto do gato na própria saúde e o mais atento ao orçamento (23,3%).
- Grupo 2 (HABSCORE 58,7): vínculo emocional forte, com 39,6% descrevendo o gato “como um filho” e a mesma proporção dizendo que “dinheiro não é problema”.
- Grupo 3 (HABSCORE 56,6): média de idade mais alta e destaque para o gato como fonte primária de suporte emocional (17,5%).
Um detalhe chama atenção: os grupos 2 e 3 se separaram integralmente por gênero na amostra — o segundo formado por mulheres, o terceiro por homens. Vale ler isso com cautela: é o resultado de um agrupamento estatístico numa amostra específica, não uma lei sobre como cada gênero se relaciona com gatos.
De modo geral, tutores em grupos de vínculo mais alto relataram mais felicidade percebida: 72,3% no grupo 2, contra 48% no grupo 1.
Por que isso importa além da curiosidade
A conclusão dos autores é que “tutor de cachorro” e “tutor de gato” são categorias grandes demais para servirem de guia — dentro delas há perfis com expectativas e disposições muito distintas. Para clínicas e campanhas de saúde animal, falar com todos da mesma forma tende a não funcionar.
Os pesquisadores fazem questão de registrar um ponto: mesmo os grupos mais pragmáticos demonstram cuidado consistente, o que sugere “um nível basal elevado de cuidado que todos os tutores proporcionam”. Ser pragmático não é sinônimo de descuidar.
Vale lembrar que a disposição de gastar esbarra em custo real: um levantamento próprio mostrou quanto custa ter um cachorro ou gato no Brasil em 2026. E a relação também é de mão dupla no comportamento — outro estudo indicou que cães tendem a ajudar humanos em apuros enquanto gatos preferem observar, e um terceiro mostrou que o efeito do pet sobre o estresse do tutor é menos direto do que se imagina.
Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a consulta a um médico-veterinário. Decisões sobre a saúde e o manejo do seu animal devem ser tomadas com um profissional.
Fonte: Companion animal owner “types” identified using a large-scale international assessment of the human-animal bond — Frontiers in Veterinary Science, 12 de maio de 2026.


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