Quando um gato começa a perder músculo, a balança demora a contar a história — porque gordura e músculo mudam em direções diferentes e o peso total pode enganar. Um trabalho brasileiro atacou exatamente esse ponto cego e acaba de ser premiado internacionalmente por medir a perda muscular em gatos com mais sensibilidade.
O estudo é do Centro de Pesquisa em Nutrologia de Cães e Gatos (CepenPet) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e levou prêmio da American Academy of Veterinary Nutrition no Clinical Nutrition & Research Symposium 2026, realizado em Washington em 9 de junho. É a primeira vez que um trabalho da USP recebe esse reconhecimento.
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Como o estudo enxerga a perda muscular em gatos
A pesquisa avaliou 20 gatos adultos por absorciometria de raios X de dupla energia (DEXA), o exame considerado padrão-ouro para composição corporal. A sacada foi usar a massa esquelética como fator de normalização, criando duas razões — gordura/osso e músculo/osso.
- O osso funciona como referência estável, pouco afetada por variações de peso de curto prazo;
- Com essa base, dá para separar o que é perda de músculo do que é perda de gordura;
- O resultado detecta alterações de composição corporal antes que a deterioração fique evidente;
- A aplicação mais direta é em gatos com doença renal crônica, nos quais a perda de massa magra é comum e grave.
O trabalho é assinado por Gabriela Pinheiro Moreno, Natália Manuela de Oliveira, Natacha Teixeira, Maria Carolina Pappalardo, Andressa Amaral e Pedro Henrique Marchi, sob orientação de Thiago Vendramini e Júlio Cesar de Balieiro, e foi apresentado por Laís Oyama C. Lima.
Por que isso importa fora do laboratório
Gato renal que emagrece costuma ser lido como “gato velho”. A perda de massa magra, porém, agrava apetite, disposição e resposta ao tratamento — e é justamente o que as novas abordagens para doença renal crônica em gatos tentam frear. Detectar antes muda o momento da intervenção nutricional.
Há um pano de fundo incômodo aqui: um levantamento recente mostrou que 57% dos veterinários dizem ter aprendido pouco sobre nutrição na graduação. Ferramentas objetivas de avaliação corporal ajudam a preencher exatamente essa lacuna na clínica do dia a dia.
Para o tutor, o recado é observar mudanças de silhueta e de musculatura, não só o número da balança — o oposto da lógica usada quando o problema é obesidade em cães e gatos. Passar a mão na coluna e na escápula do gato mensalmente é um exame caseiro grátis e mais informativo do que parece.
Fonte: Jornal da USP.


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