Antes da agricultura, antes das cidades, antes de qualquer animal de fazenda: o cão já estava lá, do lado da fogueira. E, ao que tudo indica, comendo o que os humanos davam a ele.
A conclusão vem de um trabalho publicado na Nature em 2026, sob o título “Dogs were widely distributed in Western Eurasia during the Palaeolithic” (DOI 10.1038/s41586-026-10170-x), divulgado em 28 de março de 2026.
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Como o DNA antigo redesenhou a domesticação dos cães
A equipe reúne a Universidade de York (com o professor Oliver Craig, a doutora Sophy Charlton e Lizzie Hodgson), o Museu de História Natural de Londres (doutor William Marsh) e a LMU de Munique (doutor Lachie Scarsbrook).
O método foi reconstruir genomas completos a partir de restos com mais de 10 mil anos e compará-los com “mais de 1.000 canídeos modernos e antigos” — uma base de comparação grande o bastante para separar cão domesticado de lobo.
Os achados centrais:
- Restos de cães domesticados identificados em Gough’s Cave, no Reino Unido, e em Pınarbaşı, na Turquia;
- A mandíbula de Gough’s Cave data de aproximadamente 15 mil anos;
- Os cães já estavam “amplamente distribuídos pela Europa e pela Ásia ocidental há pelo menos 14 mil anos”;
- A evidência confirmada foi empurrada para trás em mais de 5 mil anos;
- Os cães da Europa pré-agrícola contribuíram substancialmente para a genética dos cães posteriores — e dos atuais.
O detalhe do peixe que entrega a intimidade
O achado mais revelador não está no osso, e sim na dieta. A análise indicou consumo de peixe pelos animais, e os pesquisadores observam: “é improvável que os cães estivessem capturando quantidades significativas de peixe por conta própria, o que sugere que estavam sendo ativamente alimentados pelas pessoas”.
Isso muda a natureza da relação. Não se trata de lobos oportunistas rondando um acampamento em busca de sobras: trata-se de animais sendo alimentados de propósito, em plena Era do Gelo, por caçadores-coletores que ainda não plantavam nada.
Essa história longa ajuda a explicar coisas muito atuais do seu cachorro. A ligação química entre as duas espécies aparece, por exemplo, na ocitocina liberada quando cão e tutor se olham — o mesmo hormônio envolvido no vínculo entre mãe e bebê. E boa parte do que herdamos desse convívio está no comportamento cotidiano, tema do nosso guia sobre como entender o que seu pet sente e da linguagem corporal do cachorro. Até o sono guarda vestígios dessa parceria antiga, como mostra o que a ciência sabe sobre os sonhos dos cães.
E na sua casa, como é? Conte nos comentários — a gente lê e responde.


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